Eu irei ficando velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!
Aí está, de fato, não só uma obra que atravessou os séculos, bem como um personagem que, literalmente, o fez: Dorian Gray, em pessoa. Esse romance, que foi escrito no século XIX pelo famoso autor irlandês Oscar Wilde, trata de um dos mais antigos dilemas humanos, que muito já foi discutido em outras obras e também já foi lindamente cantado pela banda Alphaville naquele clássico “I wanna be forever young... do you really wanna live forever?”Basil Hallward, um artista do high society londrino do fim do século XIX conhece um jovem e intrigante rapaz, que, obviamente, chama-se Dorian Gray. Basil encanta-se com a beleza natural desse “Adônis que se diria feito de marfim e pétalas de rosa”, e resolve eternizá-la em tela, pintando o famoso retrato de Dorian Gray, no qual ele captura toda a ingenuidade da então jovem alma de seu belíssimo modelo.
Hery Wotton é um lorde inglês, amigo de longa data de Basil, que é apresentado a Dorian. Ele arrasta o jovem Gray para o submundo de Londres, os bares de Whitechapel (onde mais tarde aconteceriam os clássicos crimes de Jack, o Estripador), a bebida, o cigarro, os prazeres carnais. Lord Henry o seduz para esse universo, convencendo-o de que ele possui “as duas únicas coisas que valem à pena: beleza e juventude”, e que, com isso, pode ter o que quiser.
Assim, levado por Wotton, Dorian perde-se na devassidão e na decadência da, em fachada, conservadora sociedade vitoriana. O fato de Gray fazer uma troca, sua alma pela juventude eterna, é apenas uma forma elaborada de expressar aquele antigo pensamento de “viver rápido e morrer jovem”.
Enquanto Dorian permanece belo e jovem, seu retrato acumula o peso dos anos, envelhece por ele, e absorve todos os horrores da alma de Gray, que vai sendo destruída conforme ele tenta preservar seu segredo.
É um clássico que apela para todos os públicos, discute os dilemas não só da juventude, como principalmente daqueles que já viram a sua passar e tentam, a todo custo, recuperá-la, agarrando-se a memórias e cometendo os mesmos erros de quando jovens.
Essa obra já gerou muita discussão, e ainda vai gerar, pois a alma e os problemas do homem serão sempre os mesmos, independente do tempo em que ele viva. Deu origem a dois longa-metragens, um em 1945 e um, mais recentemente, em 2009, ambas belíssimas adaptações, que usam da licença poética para contar essa obra prima de Wilde de forma diferente.
Fica a questão: vale a pena viver eternamente?
A moderação é fatal. O suficiente é tão mau como uma refeição. O mais que suficiente é tão bom como um banquete.
2 comentários:
Não li a versão "adulta", só uma adaptação infanto-juvenil na época do ensino fundamental, não preciso dizer que amei. Adorei ver o filme baseado na obra o ano passado.
Ótima dica Carol!
Beijocas!
Tá aí um livro que tenho muita vontade de ler.
Além de ser um clássico, aborda um tema interessantíssimo.
Morro de curiosidade de conferir a história.
Gostei muito de vê-lo aqui no Entrelinhas.
beijos.
Postar um comentário