Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto - quer dizer, ninguém grande - a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer
J. D. Salinger nasceu antes de você e morreu antes de você. Ele era um recluso, passou seus últimos dias escondido em uma casa, afastado da sociedade, sem dar entrevistas, sem ver ninguém além de sua família. Escreveu diversos livros, mas o mais notável e mais conhecido é, com certeza, "O Apanhador no Campo de Centeio", lançado em 1951.Essa obra narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, um adolescente americano de dezessete anos. Depois de ser expulso de uma escola pela quarta vez consecutiva, Holden retorna a sua cidade antes das férias, e tem vergonha de voltar para a casa e enfrentar seus pais. Vergonha ou medo, não se sabe.
A partir daí, Holden vaga pela cidade de Nova Iorque, desamparado e desolado. Cada local, cada pessoa, cada coisa trás uma lembrança para ele, e a narrativa vai e vem entre os acontecimentos do fim-de-semana e a história de vida do protagonista. Ele reflete e filosofa sobre a vida e sobre tudo o que fez e o que pretende fazer no futuro.
Caulfield chega a ser chato. Resmungão, reclamão, mentiroso, hipócrita, mimado. Ele sempre tem um comentário ácido sobre tudo, sempre tem uma crítica sobre tudo. Sobre a sociedade, sobre as pessoas, sobre o mundo. Peraí. Não são todos os adolescentes assim?
São personagens-chave na história sua irmã mais nova, uma ex-namorada e o sempre presente fantasma do irmão, não fisicamente como fantasma, mas como a sombra do irmão/amigo que se foi, a lembrança, e os arrependimentos que Holden tem a respeito de seu relacionamento.
É só isso. Não tem magia, não tem segredo. É só a narrativa atrapalhada em primeira pessoa de um adolescente errante. E essa é a mágica do livro: ele reflete o interior de um adolescente comum, como eu e você somos, fomos ou seremos. É que, antes dele, nunca antes algum livro havia sido escrito para e sobre adolescentes, não existia indústria voltada para os jovens. Sério. É por isso que Márcio Antônio Bart, professor de literatura, diz que esse livro "inventou uma geração". Ele de fato o fez.
O bom dele é ver a nossa imagem refletida na de Holden. Há duas opções: ama-lo ou odiá-lo. É um livro intenso, porque fala de sentimentos, da realidade do jovem, das relações humanas, do interior do homem. Portanto, uma reação a ele apenas pode ser intensa.
Eu, como adolescente curiosa, não poderia deixar de falar dos mistérios que cercam essa obra. A reclusão repentina de Salinger, claro. Seria o protagonista uma figura auto-refrativa meio distorcida de J. D.?
Mas o mais curioso deles é a morte de John Lennon. Sim, caro leitor, esse livro matou o beatle John Lennon. Mark David Chapman, um desequilibrado, leu essa obra quando jovem, e se identificou com Holden. Para sua mente perturbada, a frase "hipócritas devem morrer", dita por Caulfield, era uma mensagem subliminar que dizia que ele deveria, de fato, matar um hipócrita. Ele deu cinco tiros em John Lennon, a quem considerou hipócrita, pelo fato de em suas canções falar de pobreza e fome sem nunca ter passado por isso.
Curioso? Sinceramente, a história não tem nada de mais. O que a torna especial para tantos leitores, eu, inclusive, é o momento em que ele é lido. Eu o li aos treze anos, e passava por vários problemas emocionais. Assim como Chapman, me identifiquei com Holden, senti sua dor e senti suas dúvidas. O livro é bem escrito, fala de coisas que você sente ou já sentiu, fala de cada um que o ler, porque quem o escreveu entregou-se por completo a seus sentimentos, e passou à obra tudo o que sentia. É lindo. Só não merece ser tão "endeusado" quanto atualmente é por uma vertente de adolescentes pseudo-cults.
Para qualquer um que goste de livros infanto-juvenis, é uma leitura obrigatória, pois foi o primeiro do gênero. Para qualquer um que já foi adolescente um dia, é uma leitura obrigatória, porque foi o primeiro e um dos poucos a falar com tanta propriedade dos problemas de uma idade tão conturbada. Em suma, é uma leitura obrigatória para todos. É um clássico moderno.
10 comentários:
Ótima explicação sobre o livro, tbm li no auge da adolescência (aos 13) e tive aquela coisa de identificação com Houlden, afinal eu era contestadora e odia "o sistema".
Parabéns Carol, adorei a coluna!
Beijocas!!!
Fiquei curioso pra ler. Gostei bastante do texto
A história da literatura juvenil, amo <3
Adorei a coluna, a Carol é super engraçada e se expressa muito bem! Além do mais, o tema é ótimo!
Ah, e agora estou louca de vontade de ler esse livro.. hahaha.
Beijos, Carol, parabéns pela coluna!!!
;***
Esse livro é genial, a irritação sem causa (ou com tantas causa que no fim, não há nenhuma) é típica dos adolescentes e das almas jovens, sempre queimando!
Obrigada a todos que leram a coluna!
Suca, obrigada *-* Tenho 16 e ainda me considero no "auge da adolescência", ainda odeio o sistema, esse capitalismo selvagem HAHA, mas faz parte, e é isso que torna o livro lindo, porque o Holden não é bruxo nem semideus nem nada de mais, ele é igualzinho à gente e tá passando pelas mesmas coisas que a gente passou.
Thales, eu sei que tu me ama, aquele abraço. (eu e ele temos uma amizade de longa data, para os que nao estao familiarizados com nossa "relação")
Abbs *---* Eu fico boba quando elogiam meu "estilo" HEHE compra, sério, vale muito à pena. Eu li 27 vezes e cada vez ele mudou minha vida de um jeito diferente.
Jéssica, obrigada. Realmente, os livros mais antigos ficam meio que renegados pelos jovens atuais, mas em sua época de lançamento, o Apanhador foi um best-seller, e até hoje tá na lista dos mais vendidos de todos os tempos! Aconselho muito a leitura, é genial.
Amanda, é exatamente isso! Essa de ser "rebelde sem causa", procurar razão pra reclamar de tudo mas na real reclamar só pelo prazer de reclamar. Isso é bom, mostra que o cara é jovem e contestador por dentro. Afinal, como diria meu amado professor de História, Marcelo Paiva, tá cheio de jovem de 80 e de velho de 15, a idade tá na cabeça.
Beijos a todos :)
Nunca tinha ouvido falar, achei bem interessante. Se eu tiver chances de lê-lo, lerei concerteza!
Parabens pela resenha, ficou muito boa, pois me lembrei deste livro que já li umas 4 vezes e não leio ele há uns 2 anos, iclusive está na minha lista dos 10 melhores livros de todos os tempos.
Para quem já leu ele eu recomendo DOZE do NICK MCDONELL
Sinopse:
Em "Doze", Nick McDonell nos apresenta White Mike, um inteligente e introspectivo jovem de 17 anos que resolveu largar a escola para negociar drogas em Nova York. White Mike gosta de ler Camus e Nietzche e não usa drogas, não bebe e não fuma, apesar de ter se dado bem vendendo drogas, uma atividade que lhe permite circular na alta roda de Manhattan. Sua mãe morreu de câncer e ele mora com o pai, um dono de restaurantes que entrou em depressão e o qual ele nunca vê. "Doze" narra cinco dias na vida de White Mike, durante as férias de Natal e Ano Novo. A cidade está cheia, os jovens voltaram para casa de férias escolares e querem aproveitar ao máximo cada minuto. O bip de White Mike não pára de vibrar e ele tem muitas entregas para fazer. A cada entrega, "Doze" nos apresenta um personagem diferente, cuja vida é brevemente revelada através de insights desses personagens. Como na alta sociedade, todos se conhecem, a vida desses mesmos personagens se encontra entrelaçada por diversos acontecimentos até atingirem o clímax na última parte do livro, durante a grande festa de Ano Novo.
Ótima explicação sobre o livro ;)
Sempre que eu via o título do livro achava que era um livro bem clássico e não tinha nada a ver com os adolescentes o.O, juro. Quando eu vi o título da sua coluna, eu fiquei bem curiosa, e sua resenha mudou minha ideia sobre o livro!
Como é um clássico, espero que tenha na biblioteca municipal da minha cidade né (apesar de que em qualquer sebo deve ter). Fiquei super surpresa que ESSE foi o primeiro livro voltado para os jovens. Certamente é uma leitura obrigatória ;)
Ah, adorei a sua coluna, super legal *-*
Beijos ;*
Isa Pina ~ portal dos livros
Nossa! Eu estava com a mesma opinião da Isa, mas depois de ler a coluna - que por sinal ficou ótima!! - eu mudei de idéia! IUHISUAHSIGASASJG assim que a oportunidade surgir, lerei xx
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