Tenho uma verdadeira paixão por Érico Veríssimo, tudo começou quando era pequena e li As aventuras de Tibicuera, um indiozinho com poderes mágicos que vê toda a história do Rio Grande do Sul. Incentivada pelo meu pai, aos 15 iniciei a leitura da saga O tempo e o vento, obra prima do escritor.
A saga conta a história do Rio Grande do Sul através da família Terra-Cambará desde o século XVIII até final da década de 40, dividida em três partes (O Continente, O retrato e O arquipélago) é uma maratona literária que deve ser percorrida por aqueles que não temem livros grossos, afinal, na maioria das edições, para ler a história completa é necessário se aventurar por sete longos volumes. Para que vocês tenham idéia do que se passa em cada parte, resolvi fazer um resuminho de cada uma. Vamos lá!
O Continente: A narrativa do cerco ao Sobrado, no fim do século 19, espalha-se na forma de pílulas, intercalada por histórias que, sozinhas, já seriam dignas de livros à parte - como, aliás, aconteceu com os capítulos “Ana Terra” e “Um Certo Capitão Rodrigo”. Estas partes contam o inicio da família Terra, representada por Ana Terra e seu amor pelo índio missioneiro Pedro, e a união com a família Cambará, através do casamento de Bibiana Terra (neta de Ana) e Capitão Rodrigo.
Praticamente todos os personagens mais importantes da trilogia são apresentados já em “O Continente”. Desde Licurgo e Maria Valéria, presentes no cerco ao Sobrado, a Ana e Bibiana Terra, o capitão Rodrigo e Luzia Silva, além de Rodrigo Terra Cambará, filho de Licurgo e em torno de quem girarão “O Retrato” e “O Arquipélago”, apresentado ainda na infância.O cerco ao Sobrado, a cidadela herdada pela família Terra Cambará como resultado da guerra surda entre a velha Bibiana e a nora Luzia, é o fio condutor entre o passado e o futuro. Quatro gerações de Terras e Cambarás estão ali presentes no desfecho da Revolução Federalista, em 1895, cercadas pelos maragatos (homens a favor da monarquia) – contra os quais Licurgo luta durante quase toda a vida e ao lado dos quais morre lutando, décadas mais tarde. Mantido a grande custo apesar do acirrado cerco, o casarão ganha ares de palco principal em “O Retrato” e “O Continente”.
O Retrato: De volta a Santa Fé depois de ter ido estudar medicina em Porto Alegre, o jovem e idealista Rodrigo Terra Cambará busca estabelecer-se em sua terra natal e depara-se com uma batalha já perdida de início contra seus próprios impulsos. Admirado com a vitalidade do amigo, o desacreditado artista anarquista Pepe García decide pintar um retrato de Rodrigo. O pintor dedica sangue, suor e alma à confecção do quadro. O resultado do trabalho do pintor, no qual ninguém botava muita fé, é uma obra-de-arte.
As grandes vítimas da genialidade do pintor são o próprio artista e seu modelo. A criatividade de Pepe García esgota-se no retrato, como se ao quadro ele tivesse dedicado todos os seus esforços e tornado-se estéril ao encerrá-lo. Já Rodrigo passa a definhar. A altivez com que é retratado por Pepe García jamais será a mesma novamente, numa espécie de “O Retrato de Dorian Gray” (obra de Oscar Wilde) às avessas.
Paralelamente à decadência pessoal de Rodrigo desfila a decadência social de Santa Fé na passagem do século 19 para o 20, projetada nas conseqüências do jogo de alianças políticas dos oligarcas locais com líderes gaúchos.
O Arquipélago: O autor apresenta aos leitores um alter-ego, o escritor Floriano Cambará, filho de Rodrigo e Flora, um intelectual em busca de inspiração para uma carreira literária sólida.
A história do Brasil na primeira metade do século 20 serve de pano de fundo para o salto da influência da família Terra Cambará do âmbito meramente local para uma escala nacional. Depois de muitos anos no Rio de Janeiro, ao lado do amigo e aliado Getúlio Vargas, Rodrigo retorna a Santa Fé após a queda do Estado Novo, derrotado politicamente. Com a vida por um fio por conta de uma série de problemas cardíacos, luta contra o imponderável para não se tornar no primeiro Cambará macho a morrer na cama.
O retorno de Rodrigo a Santa Fé acaba por reunir todo o clã Terra Cambará e força um acerto de contas familiar. No meio do caminho, Floriano vai juntando as peças para o romance definitivo que pretende escrever.
Érico Veríssimo tem um estilo literário próprio: contador de histórias. O tempo e o vento é tão bem escrito que é impossível parar de lê-lo, cheio de histórias totalmente possíveis de terem acontecido com algum antepassado de nossas famílias, mostra um pouco da história do meu estado para todo o Brasil e o mundo!







